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Mas tá tudo bem, mãe; é a vida, e a vida só #1

São Paulo, pequenos alvoroços e gaúchos sem bombacha


Olá, pessoal. Ninguém perguntou, mas deixa eu esclarecer o motivo da demora pra enviar o segundo fascículo desta newsletter: não deu pra encaixar tudo na agenda, mesmo. Esses quarenta e cinco dias pelo sudeste foram uma verdadeira ginástica entre o trabalho que paga as contas, o trabalho que só dá mais contas e a pura e simples curiosidade de bater perna por aí. E, quando me refugiei num sítio a uma hora de Belo Horizonte, sinceramente, preferi me desconectar de tudo que pude.

Então, a segunda parte do “Dentro do som do silêncio” e várias outros textos estão na panela, só esperando o tempo certo de cozimento. E eu prometo que não vai demorar, vou ir publicando aos poucos, nos próximos dias e semanas.


O texto a seguir é, obviamente, inspirado (uma cópia descarada) em “Cartas da Mãe”, coluna que o mestre Henfil manteve entre 1977 e 1980 na Isto É, mas é também uma homenagem à coluna que meu camarada Roqueh Bittencourt assinava no jornal Patyfarias, “Sua bênção, mamãe”.


E o resto você já sabe: se você quiser pular fora desse barco, tem um botão pra isso, no topo ou no rodapé deste e-mail. Eu estou ainda entendendo como ter algum tipo de interação neste espaço, quem sabe criar uma espécie de seção de cartas, como nos gibis antigos. Então, por ora, se quiser enviar perguntas, clique aqui. Reclamações? Envie para . E, se quiser bater um papo, meu e-mail: lucasfreitasdarosa@gmail.com

É isso. Boa leitura.


São Paulo, 30 de agosto de 2023


Mãe,


São Paulo é um bicho, uma coisa doida, um verdadeiro mundaréu! É mais ou menos do Caetano disse na letra de Vaca Profana: é como o mundo todo.


Olha, o homem tinha lá suas razões. Imagine só, ele saiu de Santo Amaro, na Bahia, e veio desembocar em São Paulo. Não é de admirar que ele tenha se apaixonado por essa cidade.


O poeta Haroldo de Campos, que eu gosto muito, costumava dizer que São Paulo é uma cidade sem caráter no sentido de que não pode ser caracterizada. Afinal, ela tá sempre mudando.


É um clichê que todo mundo repete, mas é verdade: parece que tem um monte de cidades dentro dessa confusão toda.


Tem até uma Bagé escondida aqui, acredita? Inclusive, o que falta, para curar a neurose do paulista ou paulistano (nunca sei a diferença), talvez seja o Analista de Bagé, do Luís Fernando Veríssimo.


Mas sabia, mãe, que, em 1959, o Augusto Boal (aquele cara que criou o Teatro do Oprimido) montou “A Farsa da Esposa Perfeita”, uma peça escrita por uma conterrânea nossa, Edy Lima?


Antes desse espetáculo, ele tinha passado em Bagé. Antigamente, as companhias de teatro excursionavam muito pelo interior do país — e não podia ser diferente com o Teatro de Arena. Aliás, acho que foi numa dessas que ele passou por Porto Alegre e acabou trazendo o Paulo José pra cá.


Agora, uma coisa engraçada que me lembrei outro dia. Ano passado, aqui também em São Paulo, entrevistei uma dubladora chamada Zodja Pereira — pessoa fantástica, gentil, talentosíssima. Eu a vi dublando uma ceninha de um filme qualquer, um trecho que ela precisou ajustar algum detalhe pra fazer o som caber direitinho no bater de boca da atriz estrangeira. Coisa de louco, mãe.


Ela me contou que em 1969 encenou um musical chamado “O Divertido Casamento do Guaxo Zacarias” no Teatro das Artes de São Paulo, e o texto era de autoria no Barbosa Lessa. Dá pra acreditar? Enquanto contava a história, ria muito, porque dizia que era, talvez, “a primeira nordestina prenda do teatro brasileiro”. É que ela nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte.


Há muita coisa por aqui, mãe. O que acontece é que, infelizmente, quase tudo custa muito caro, e ultimamente a etiqueta de preço tá ainda escondida em um QRCode.


Dois dias atrás, eu e a Marina estávamos na frente de um café. Não era um lugar chique nem nada, mas um daqueles onde se paga por uma “experiência” e sai com um troço na mão para comer enquanto anda por aí.


É essa ideia de que em São Paulo as pessoas estão sempre indo de um lado pro lado, correndo, pegando metrô e coisa e tal. É uma historinha bonita, mas é só um lugar que não tem onde sentar.


Foi então que um morador de rua se aproximou da gente e pediu um salgado. Ele disse que estava com fome e não tinha nem almoçado. Mas, com uma gentileza surpreendente, nos informou que o lugar em que estávamos era caro demais e, por isso, sugeriu um botequim a duas quadras de distância.


Foi enfático: no bar do Fulano, eu poderia comprar pra ele duas coxinhas por um preço mais acessível.


Resolvi, então, acompanhar o camarada até o boteco. Perguntei há quanto tempo ele estava nas ruas, e ele disse que sempre viveu nelas. Ele perguntou se eu era professor, me disse que eu tinha cara de quem trabalha no albergue ou no CAPS, pois, no fim, ele via gente assim todo dia.


Sei que falam muita coisa ruim de São Paulo, e, muitas vezes, é difícil discordar. É que, no fim das contas, São Paulo é como o mundo todo.


Mas uma coisa não tenha dúvida, não é o que aparece no programa do Datena.


Aliás, engraçado: em Porto Alegre, tudo que é estabelecimento comercial deixa a tevê ligada nesse programa horroroso. Até agora, não vi um bar sequer que estivesse nessa mesma sintonia por aqui. O pessoal prefere futebol mesmo.


Estou gostando e acho que tenho um temperamento que dá certo com essa loucura toda. Deve ter alguma coisa que faz com que gaúchos (ao menos, os não-praticantes, sem bombacha) consigam se virar bem em São Paulo. Acho que não é a toa que puseram o Walmor Chagas pra protagonizar São Paulo S/A.


Espero que esteja tudo bem aí,


Um beijo do seu filho,


Lucas. ■

* Texto publicado original em 24 de outubro de 2023, na plataforma Substack.

 
 
 

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