Mas tá tudo bem, mãe; é a vida, e a vida só #3
- Lucas Rosa
- 6 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
Rio de Janeura e a triste e linda Zona Sul
Um aviso aos navegantes:
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Ah, para aqueles que estão lendo estas palavras e ainda não se inscreveram na newsletter, vamos colocar as cartas na mesa: aí, sim, estamos falando em ferir corações.
Bom, feitos os reclames do plim-plim, fique com o texto de hoje. Boa leitura.

Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2023.
Mãe,
Estou mandando notícias. Vi o Cristo Redentor lá no horizonte e tive a certeza, cheguei no Rio de Janeiro. É exatamente do que jeito que falaram (e todo mundo já falou disso, né), é a cidade maravilhosa, sem tirar nem pôr.
Te respondendo sobre o Nelson Machado, como é que a gente pode ter conversado tanto e o Quico ter passado batido. Mas é que, de verdade, não há motivo para ficar perguntando qualquer coisa sobre Chaves, entende? O pessoal que é fã do seriado já perguntou tudo que podia e ele respondeu tudo que lembrava.
Mas, sabe, o Nelson é um grande fã de Beatles (e quem não é?). Para justificar o meu ponto (e acho que peguei ele de surpresa), fiz uma comparação que, com as devidas proporções, até faz sentido. Ora, imagine se eu estivesse ali com o Paul McCartney. Por que raios eu perguntaria algo como “Como você compôs ‘Let It Be’?” ou, pior ainda, “Como que você começou a sua carreira?”. Então, é mais ou menos por aí.
E sabe o que mais a gente falou? Sobre Luís Fernando Veríssimo, que ele gosta muito também. Inclusive, eu diria que, se ele fosse escalado para interpretar o Silva, vilão de Ed Mort, teríamos uma escolha de cast perfeita.
Claro, falamos de dublagem também. Em algum momento, parei para suas ouvir histórias de seriados antigos e de dubladores incríveis que já se foram. Carlos Alberto Vaccari, Isaura Gomes, Nair Silva, Osmiro Campos… Esqueci de mencionar a ele uma dubladora por quem sou apaixonado pela voz, Ivete Jayme. Ela é viva e deve ter mais de noventa anos. Adoro ouvi-la dublando a Marilyn Monroe em “Almas Desesperadas”.
Além disso, o Nelson comentou também comigo que, em seu começo de carreira, quatro dubladores foram inspiração máxima: Nelson Batista, Olney Cazarré, Ézio Ramos e Marcelo Gastaldi — todos já falecidos. Acontece que, de fato, quando surgiram, eles foram dubladores que se destacaram e se diferenciaram muito.
Veja, a dublagem paulista tem uma tradição que remonta a uma forma de interpretação muito radiofônica, com seus vícios que, de alguma maneira, a gente até pode encarar como charme (lembra do “Sortilégio do Amor”, com James Stewart, que assistimos uma vez?). Esses dubladores de quem ele me falou não eram apenas vozes jovens, mas também tinham uma interpretação que carregava uma certa soltura.
Bom, mas ainda estou falando de São Paulo, e eu sei que o que você quer saber é do Rio de Janeiro, não é mesmo?
Ano passado, eu fiquei em Copacabana, bairro que todo brasileiro já ouviu falar e, sim, é verdade, tem toda uma aura de novela da Globo. Mas também é verdade que o pessoal de lá costuma dizer que o lugar “não é mais como era antes”, que piorou muito, essa ladainha que a gente ouve em todo lugar. Claro, é difícil opinar vindo de longe, mas, para mim, pareceu um bairro simpático, abarrotado de velhinhos e turistas.
Dessa vez, no entanto, optamos por outro bairro da “triste e linda Zona Sul”, como diria o Raul Seixas: o Flamengo. Apesar de ainda estar nessa área nobre da cidade e, por isso, estar pertinho do Leblon, de Ipanema e Copacabana, também está a um pulo do Centro ou da Lapa. Tem uns bairros bacanas nas redondezas, como Catete, Glória e Botafogo, e, pra facilitar a vida, o metrô ficava do lado de onde nos hospedamos.
O legal é que, por estar nessa localização, o bairro tem uma mistura interessante. Logo no dia que cheguei, fui meio trouxa de ir fazer compras num mercado de burguês aqui na volta, o “Zona Sul”, que fica na Machado de Assis (na rua, tinha até um edifício chamado Quicas Borba e outro Brás Cubas).
Vi um famoso (daqueles que são famosos, mas nem tanto, como já te disse) e deixei uma semana de salário naquelas compras. Tivesse sido mais esperto, teria ido na Rua do Catete, do lado de onde estávamos, que tinha uns comércios com preços bem mais em conta.
A gente acha fácil mercado, farmácia, loja de roupa e calçado, de tudo um pouco. Durante o dia, tem também uns camelôs esquisitíssimos vendendo coisas que eu apostaria que foram adquiridas de maneira não muito convencional. Visualize: uma canga estendida na calçada com uma sandália Melissa que outrora foi branca, mas agora apresenta uma coloração indefinida, um amontoado de cabos eletrônicos que desafiam a lógica, um livro de pinturas de Gauguin, uma fotopintura de um casamento do final da década 50 e por aí vai.
Agora que pisei no Rio, não consigo parar de pensar em como é doido que o Brasil tem essas duas cidades, Rio de Janeiro e São Paulo, tão perto uma da outra no mapa, mas tão diferentes. Uma amiga, que é carioca, me disse: o paulista demora uma eternidade para te dar o endereço da casa dele, mas quando o faz, te dá a chave e a senha do wi-fi. O carioca, no entanto, logo que te conhece na praia ou no bar, te convida para ficar na casa dele ou para uma festa no dia seguinte, mas esquece de te passar o endereço ou passa tudo errado. E advinha só? Aconteceu mais isso comigo, mas deixa pra lá. Disse o Leminski: distraídos venceremos (e eles estão vencendo mesmo).
Tem uma coisa que é muito diferente e acontece já no momento em que abro a boca pra falar. Lembra que comentei que, em São Paulo, ninguém perguntava de onde eu era? É que, na terra da garoa, quase ninguém é de lá mesmo. Já no Rio, é diferente. Mal abro a boca, e alguém já diz: “Qual foi? De onde você é? Tô vendo o teu sotaque, é paulista?”, com s aquele chiado indefectível do carioca.
E essa pergunta não casual; é uma preocupação genuína do carioca em sacar quem é local e quem é forasteiro. A partir dessa informação, todo o diálogo é pautado. Não é que todos aqui sejam como o Alê, que aluga as cadeiras na Praia Vermelha por dez reais (ou quinze no final da tarde), te olha bem e já sabe que você não é carioca e cobra sessenta pratas por uma porção de batata. Às vezes, o sujeito só quer ser gentil e dar uma dica ou oferecer ajuda. Mas estabelecer essa diferença é a primeira regra do jogo.
Eu até tento disfarçar, mas não tem jeito, não é só o jeito de falar, tem todo um conjunto, como se veste e anda. Parece que todo mundo aqui tem um radar apurado pra isso. E não vai acreditar: calor de 40ºC e outro dia inventei de andar de calças.
E tudo é mais solto aqui, como dizem, mãe. É natural ver pessoas de biquíni e sem camisa, já que a praia faz parte do cenário urbano. Diferente de São Paulo, que é um emaranhado de ruas e avenidas que desorienta até o mais atento, aqui a geografia é bem mais amigável. De um lado praia, do outro morro. Os postos na areia servem como pontos de referência e até o vento dá pistas do clima. Não tem como você se perder.
E a praia é realmente um espaço democrático, do jeito que falam por aí. Porque parece que o Rio é uma cidade onde o povo se encontra no rolê pelas ruas, ocupando o espaço urbano e com o espaço privando se espraiando pelas calçadas ou becos e vielas: na praia, mas também através do samba, do carnaval, do jogo do bicho, da macumba, do baile funk.
Ontem mesmo, eu dei um pulo na praia aqui perto e tava cheio de famílias, algumas que deviam ter vindo de regiões mais periféricas, muitas sentadas em cadeiras de abrir e com isopores para cerveja, outras já estavam indo em direção aos ônibus para voltar pra casa. E é uma paisagem absurda mesmo. A gente fica olhando pro Pão de Açúcar e é muito fácil de ficar hipnotizado.
Fico pensando em como isso faz a cabeça das pessoas aqui. Imagine só, poder pegar uma praia logo depois do trabalho. Não há muitos lugares no mundo em que isso é possível.
Por outro lado, sinto aqui no Rio um certo provincianismo, sabe? (E de provincianismo nós, gaúchos, entendemos). Começa com a pergunta sobre de onde você veio e termina centralizando e redistribuindo a cultura do Brasil, com esse compromisso de assinar em baixo o que vai e o que não vai.
E, bom, aqui foi a capital política do Brasil por quase duzentos anos. E ainda hoje é, de certa forma, a capital cultural do país. Nesse sentido, São Paulo é outra coisa. Não tem esse compromisso, é independente, o Caetano quem disse isso.
Agora, enquanto em São Paulo, a gente vê um milhão de cidades dentro de uma só, com suas fronteiras nítidas; no Rio, as diferentes realidades parecem se misturar na mesma rua. Um palácio neoclássico de cair o queixo lado a lado com construções mais contemporâneas, como de um edifício com um nome que beira o kitsch, como “Windsor Florida Hotel”. Uma família francesa desembarca de um táxi amarelinho, e um mendigo abraçado a um cachorro sussurra alguma coisa, quase afônico.
Claro, é bom evitarmos esses lugares-comuns: o paulista sisudo e o carioca malandro. Afinal, como é que uma cidade pode ser só uma coisa e outra pode ser só outra? Ao mesmo tempo, mãe, existem diferenças, e tenho pensado muito sobre elas durante a viagem.
O que mais gosto de São Paulo é o sabor da multidão; é essa coisa que faz com a gente desapareça (ou fique muito pequenininho) no meio de todo mundo. E o que gostei daqui talvez seja quase oposto de lá; é que aqui não dá pra ser tímido. O Criolo pode até cantar que não tem amor em SP (o que, óbvio, é mentira), mas uma coisa que não existe no Rio, eu garanto, é a timidez. Ou, pelo menos, os tímidos sofrem.
Não tem jeito, mãe, aqui o movimento é pra fora, e tem que ficar esperto e saber desenrolar.
Uma amiga disse que tem a impressão de que os gaúchos gostam muito do Rio. E eu acho que concordo, gostamos porque encontramos algo que não temos em nós, algo que desafia a gente.
Ah, antes que eu esqueça: uma coisa que eu amo do Rio de Janeiro é o cheiro de alho que invade as janelas perto do meio-dia.
Me alonguei demais, eu sei. Mas é isso.
Continuo aqui, trabalhando muito e aproveitando ao máximo.
Eu sou o equilibrista e o bêbado, tudo junto.
A bênção do seu filho,
Lucas. ■
* Texto publicado original em 6 de novembro de 2023, na plataforma Substack.




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